
No dia 20 de maio, às 15h, o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, sediou o lançamento do Centro de Documentação de Línguas e Culturas Indígenas, com a presença da ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara. O evento marcou o início das atividades do Centro, que desenvolverá projetos ao longo dos próximos cinco anos, com foco na pesquisa, documentação e difusão de línguas e culturas indígenas no Brasil. Trata-se de uma ação conjunta do Museu da Língua Portuguesa e do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo, com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP.
A iniciativa é uma resposta à urgência de reconhecer, valorizar e documentar as mais de 175 línguas indígenas faladas no país, muitas delas ameaçadas pela interrupção da transmissão entre as gerações. “A ciência e a tecnologia têm um papel estratégico na preservação e difusão dessas línguas. A Antropologia e a Linguística, aliadas às tecnologias digitais, permitirão que a sociedade conheça e valorize esses saberes, protegendo-os do esquecimento”, afirma Marco Antonio Zago, presidente da FAPESP.
“A ciência e a tecnologia têm um papel estratégico
na preservação e difusão dessas línguas.
A Antropologia e a Linguística, aliadas às tecnologias digitais,
permitirão que a sociedade conheça e valorize esses saberes, protegendo-os do esquecimento”
A coordenação de pesquisa e documentação nas áreas de Antropologia e Linguística ficará a cargo de duas docentes da Universidade de São Paulo: respectivamente, Maria Luisa Lucas e Luciana Storto. O Centro também abrirá processo seletivo para 14 bolsistas de graduação e pós-graduação e ainda para 5 bolsistas técnicos, com especial atenção às candidaturas indígenas.

Foto: Maria Luísa Lucas, 2022.
Valorização da diversidade linguística e cultural
O Brasil é um dos países mais multilíngues do mundo, onde vivem 305 povos indígenas cuja riqueza e diversidade é pouco conhecida pela maioria da população. Muitas comunidades enfrentam o desafio de manter vivas suas línguas e culturas e a documentação em texto, áudio e vídeo pode ser uma ferramenta para a valorização dessas línguas e dos complexos sistemas de conhecimento que permeiam os modos de vida indígenas.
O Centro surgirá como referência nacional e internacional na constituição de coleções digitais de conhecimentos indígenas, sempre em diálogo com as comunidades envolvidas. “Queremos constituir coleções para e com os povos indígenas a partir do consentimento prévio, livre e informado às comunidades indígenas parceiras e do diálogo permanente, respeitando os regimes de conhecimento desses povos, suas cosmologias e envolvendo-as nas decisões sobre as formas de registro, armazenamento, acesso e circulação das coleções”, destacam os organizadores.
Ações e parcerias
Os trabalhos de pesquisa e documentação linguística iniciais estarão concentrados em Rondônia e na região das Guianas, importantes áreas multilíngues do país. Já na área da antropologia, a ênfase estará na documentação de sistemas de conhecimento, especialmente aqueles associados à produção de itens como objetos e repertórios gráficos, às artes verbais e aos modos de relacionamento e produção da paisagem.
O projeto também prevê seminários, oficinas, exposições e ações educativas em parceria com comunidades indígenas e instituições parceiras.
“As línguas são veículos de conhecimento
essenciais para os povos indígenas,
e sua vitalidade e livre expressão é fundamental
para o desenvolvimento sustentável das sociedades”
Para o Museu da Língua Portuguesa, o Centro representa a consolidação de um trabalho iniciado em 2022, com a exposição Nhe’ẽ Porã: Memória e Transformação. “As línguas são veículos de conhecimento essenciais para os povos indígenas, e sua vitalidade e livre expressão é fundamental para o desenvolvimento sustentável das sociedades”, afirma Renata Motta, diretora executiva do museu.
Já o MAE-USP vê no projeto uma oportunidade de ampliar sua atuação. “Temos um acervo único de objetos indígenas, e o Centro permitirá a formação de novas coleções digitais, em parceria com pesquisadores indígenas, preservando patrimônios ameaçados”, diz Eduardo Neves, diretor do museu.
“Temos um acervo único de objetos indígenas,
e o Centro permitirá a formação de novas coleções digitais,
em parceria com pesquisadores indígenas,
preservando patrimônios ameaçados”
O lançamento do Centro reforça o compromisso com a diversidade linguística e cultural e abre caminho para novas formas de valorização dos conhecimentos indígenas no Brasil.
